quarta-feira, maio 26, 2010

Um livro para cada ocasião

"Por que em certos momentos de nossa vida escolhemos a companhia de um livro mais que a de outro? Durante o tempo que passou no cárcere, Oscar Wilde pediu para ler A ilha do tesouro, de Stevenson, e um guia de conversação francês-italiano. Alexandre, o Grande, levou com ele em suas batalhas um exemplar de A Ilíada, de Homero. O assassino de John Lennon decidiu munir-se de O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, para o momento do crime. Na prisão, será que Bernard Madoff vai querer ler, em A pequena Dorrit, de Dickens, como o escroque Sr. Merdle, não suportando a vergonha de ser desmascarado, corta a própria garganta com uma navalha que pegou emprestada? E o papa Bento XVI vai se enclausurar com um exemplar de Bubu de Montparnasse, de Charles-Louis Philippe, para analisar o fenômeno da falta de preservativos que provocou uma epidemia de sífilis em Paris no século XIX? G. K. Chesterton, um poeta com senso prático, imaginava que se estivesse encalhado numa ilha deserta, adoraria ter com ele um manual básico sobre construção naval; nas mesmas circunstâncias, o francês Jules Renard, menos pragmático, preferia Cândido, de Voltaire, e Os bandoleiros, de Schiller.
E quanto a mim, que livros eu escolheria para me fazer companhia ? Sem dúvida, acredito na utilidade inegável de uma biblioteca virtual, mas não utilizo os e-books, essas encarnações modernas das placas assírias, nem os iPods, e tampouco os nostálgicos game-boys. Sou habituado à substância palpável do papel e da tinta. Fiz então, de cabeça, uma lista dos livros que estão empilhados em minha casa, perto de minha cama. Descartei os romances recentes (demasiadamente arriscados, pois ainda não deram provas de que são bons), as biografias (que apresentam gente demais nas circunstâncias em que me encontro) os ensaios científicos e os policiais (muito cerebrais; por mais que recentemente eu tenha apreciado o renascimento darwinista e a releitura de grandes clássicos do crime, uma descrição detalhada dos genes do egoísmo e do cérebro do assassino não me pareceu o remédio adequado). Mas não: eu queria uma espécie de alimento reconfortante, algo de que já tivesse gostado e pudesse reler tranquilamente e com prazer, mas que, ao mesmo tempo, me fizesse vibrar e trabalhar a mente"...
Ao ler esse trecho da coluna de Alberto Manguel, no incrível site do Le Monde Diplomatique - Brasil, fiquei pensando exatamente - quase que Ipis litteris - o mesmo. Ele escreveu a história em decorrência de um período no Hospital. E eu, cá no meu isolamento por razões profissionais, penso que existem livros que nos fazem uma companhia real e impressionantemente capaz de mudar o que estamos vivendo. Trouxe alguns livros pra São Paulo. Willian Faulkner, George Orwell, e comprei um Camões. Mas sinto que falta O livro, aquele que me fizesse esquecer tudo e viajar na história! Pensei em Dom Quixote, As 1001 noites, Clarice...Enfim, mas o que ainda me corrói por uma leitura urgente é a obra os "Sete Pilares da Sabedoria", de Thomas Edward Lawrence, a.k.a Lawrence da Arábia! Mas enquanto não defino o livro da ocasião, o que vcs ilustres leitores desse blog me sugerem???

2 comentários:

Vini disse...

'O Evangelho segundo Jesus Cristo'.

Marcus Reis disse...

Tem um ótimo: "Canalha" do Fabricio Carpinejar... :)