segunda-feira, maio 10, 2010

Pagu



















Patrícia Galvão. Figura múltipla. Escreveu reportagens, livros, peças de teatro, foi militante política e agitadora cultural. Em junho completa-se o centenário do nascimento (09/06 de 1910) dessa paulista de São João da Boa Vista. E dai eu me lembrei que na escola estudei um pouco do movimento cultural e político que a tal da moça Pagu participava. Remoendo isso, fui buscar elementos da vida dessa comunistinha lá na casa da minha dinda (pra variar) e descobri mais do que queria. Vamos aos fatos?! Pagu atirou-se na vida com um sofrimento de suicida. Na época em que mulheres só podiam casar e ter filhos, ela teve coragem de transgredir e pagar o preço. Sendo assim, não se poupou de nada.
Conhecida como a mascote sexy e bem falante dos modernistas, viveu mais dramas do que alegrias. Mas cumpriu seu papel no mundo: o de demolidora de convenções. O pai, advogado, gastava o dinheiro em bares, a mãe, alemã, obrigava aos filhos a vida disciplinada e a resignação. Patrícia, odiava aquilo tudo. Aos 12 anos decidiu virar mulher, e para isso, escolheu um homem mais velho, com quem viveu durante dois anos . Aos 14, engravidou e submeteu-se a um aborto que perdurou em sua memória como uma lembrança terrível. Para sair de casa, deu um jeito. Aos 15, assinando como Patsy, estreou na imprensa - no Brás Revista - com poemas e desenhos. A graça de Patrícia não passou despercebida. Raul Bopp - que a apelidou de Pagu por achar que seu nome era Patrícia Goulart - foi o primeiro a cair de amores ((( Pagu tem os olhos moles, uns olhos de fazer doer. Bate-coco quando passa. Coração começa a bater. Eh Pagu eh!))). Sendo a menina dos modernistas, passou a escrever para a Revista de Antropofagia, na segunda fase, publicada pelo Diário de São Paulo. Todos se encantaram...Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral incorporaram a moça à vida social da época. Mas...
...Não é que ela acabou ficando com Oswald e perdendo a amizade de Tarsila (que passou a chamar Pagu de "a Normalista"). Praga ou não, na véspera do casamento, Pagu encontrou o futuro consorte com uma moça. E foi por causa da lealdade dela a ele que conseguiram manter o casamento. Com o marido, ela trabalhou intensamente. A década de 30 foi marcada pela fermentação dos ideais políticos. A expansão do fascismo e o surgimento do nazismo atraíram para o comunismo uma parcela da juventude. Inclusive ela. Bastaram 3 dias de conversa com Luíz Carlos Prestes para nascer uma militante.
Dedicou parte da vida ao Partido Comunista, deixou o filho Rudá, ainda bebê ao cuidados do pai e foi viver como operária no Rio. Para provar sua fidelidade ao Partidão suportou prisões, fome , exaustão e doença. Mas revoltou-se ao ser convocada para tarefas em que deveria oferecer sexo por troca de informações. Largou tudo e foi para a Europa. Enviava reportagens para o Correio da Manhã, do Rio e o Diário da Noite, de SP.
Em 1935, separada de Oswald, foi presa na Intentona Comunista, entre fugas e recapturas amargou 5 anos na prisão. Ao sair, tinha 30 e se transfomara segundo ela "numa rocha vincada de golpes e amargura". Tentou novamente o amor, dessa vez com o jornalista Geraldo Ferraz. Foram anos de dedicação a palavra escrita. Viveu com paixão o jornalismo cultural. Lançou o suplemento literário do Diário de S.P e deu um empurrãozinho na estréia de Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector, além de apresentar o leitor a James Joyce, Henry Miller e o meu adorável William Faulkner. Essa Pagu, ficou na memória do segundo filho, que dizia que "a mãe passava as tardes escrevendo docemente". Ela gostava de cozinhar e ficar em casa, mas a depressão batia e junto com ela o álcool imperava. Tentou o suícidio duas vezes. A última, com um tiro no peito, foi em Paris, para onde viajou quando descobriu um câncer de pulmão. Socorrida, sobreviveu alguns meses, mas não suportou a doença que a levou aos 52 anos. Intensa, indignada no palanque, mulher. Pagu deixou um legado simples: o de quem sonhava com horizontes mais amplos. E ela, conseguiu!

2 comentários:

Ci disse...

Mais macho que muito homem!

Nêga, Preta ou Pree disse...

Das nossas!