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quinta-feira, agosto 01, 2013

Surpreenda-me


Façam a seguinte experiência: entrem no google digitem a expressão "Surpreenda-me" ou o equivalente em inglês "Surprise me". Sabem quantas referências vocês obterão? Mais de 30 milhões. Surpreenda-me, pedem canções, poemas, blogs. Surpreenda-me, pedem-nos as pessoas em geral. Com boas razões.Temos uma tendência irresistível para cair na rotina, para repetir as mesmas coisas, para dizer o que já foi dito, para olhar o que já foi visto. Por que fazemos isso? Em primeiro lugar, por temor ao desconhecido; no fundo, bem no fundo, achamos que as surpresas em geral são desagradáveis e que temos de evitá-las. Em segundo lugar, por comodidade e preguiça. É mais fácil repetir a rotina. Isso até pode funcionar quando se trata, por exemplo, de um trabalho no qual a inovação não é fundamental; ai, "more of the same", mais da mesma coisa talvez seja inevitável. Mas quando falamos na relação a dois a coisa é completamente diferente. Qualquer paixão, por mais intensa que seja, acaba liquidada pela rotina. Muitos jovens sabem disso e se perguntam, inquietos: como renovar os sentimentos? Como redescobrir o amor a cada encontro? A resposta está no "surpreenda-me". Nenhuma novidade nisto: quem escreve contos, como eu, sabe que uma história bem-sucedida, a história que arrebatará o leitor, é aquela que guarda uma surpresa para o final. Mas as histórias de amor que vivemos na realidade não precisam esperar o final.
A surpresa pode aparecer a qualquer momento: um lugar diferente, uma viagem, uma frase, um gesto. Surpreender a pessoa amada é partilhar daquela emoção que tinham os antigos navegantes quando chegavam a um novo país. E, se navegar é preciso, surpreender também é preciso, para chegar ao país da duradoura paixão."

Moacyr Scliar

segunda-feira, junho 17, 2013

12º andar

Nem penso no que eles pensam. Agora entendo porque o garoto não suportava as máquinas ferozes. Elas vivem podando sua criatividade e impondo sentenças medíocres para fins lucrativos. Sim, eu já sabia disso. Mas a gente sempre tenta mascarar a realidade. É como o botão que falta na camisa. O botão falta e você sabe que a camisa vai continuar servindo mesmo assim. 
Ele disse vem. Não fui. E os azulejos permaneciam craquelados. Uma menina sorri no 12º andar. Ela olha para fantasmas.  Mas não os teme. Ainda assim, sorri. O relógio da vida vai tiquetaqueando em minha cabeça. Cada minuto pode ser o último! A umidade relativa do ar afeta proporcionalmente os rins. Faz frio. Nem dá pra bater o queixo. No meio da multidão vi seu riso. Vem. Eu fui. Chega o momento em que as fichas caem e percebemos que mesmo sendo poeira cósmica, um instantinho fugaz, seremos sempre estrelas. Nunca aceite nada menos do que o brilho delas. E não são só números, verbas, gastos. E sim sentimentos. Emoções. Honra. Dignidade e Respeito.
E agora penso lógica e racionalmente como nunca havia feito antes.
Basta de empresas sanguessugas, de políticos corruptos, de mulheres malvadas, de um governo que não investe no que importa, de homens cretinos, de gente que rouba, de impunidade. Basta! 
É hora de arrancar a camisa, esteja ela com ou sem botão. 

quinta-feira, junho 13, 2013

- Cada um dá aquilo que recebe?!
- Não.
- Cada um dá o que tem. E uns tem tão pouco...

(...)

E eles se olharam e chegaram a conclusão mais sábia daquela noite.

sábado, junho 01, 2013

Lei Seca virtual

O bêbado virtual, mais frequente na madrugada, tem um único objetivo: achar uma bêbada virtual. Que nem sempre está bêbada, diga-se de passagem, pode apenas estar insone aquela hora da noite. Pode ter acabado de chegar do plantão, ou ter visto um minissérie com a mãe ou  pior ainda ter dado de mamar a um bebê. Mas essas coisas o bêbado virtual releva porque afinal é uma fêmea, uma caça qualquer à disposição. E ele, confia no seu taco. É ai que a Lei Seca deveria se estender ao mundo virtual. Não é possível que os bêbados continuem a transitar livremente pelo Facebook. Para a sua própria segurança, deveriam ser interditados.  Não precisaria de bafômetro. Nesse caso, o bêbado ao invés de enrolar a língua enrola mesmo os dedos. E dedilha tanta merda. Surgem "hahahas" fora do lugar, links repetidos de outras cantadas, insinuações, "hummms" excessivamente longos, tergiversações surrealistas, haicais involuntários, vírgulas e todo estupro que a língua portuguesa pode sofrer. Os menos cretinos pelo menos não fazem "declarações de amor", porque o bêbado arrisca primeiro na  questão fisiológica "da coisa" para ver se cola. E se colar, coitado! Afinal, ele só conseguiu uma desesperada do outro lado da tela. 

sexta-feira, maio 17, 2013

Na paleta!

Perdão é para as divindades. "Trairagem", mal-agradecimento e trouxice se marca é na paleta...

domingo, maio 12, 2013

Me equilibrando na corda bamba da saudade para não cair

Ela me ensinou a ser forte, curiosa e independente. Vai ver por isso ela tenha ido embora tão cedo. Para testar na prática o que me ensinou. Suportei no osso a derrota da vida frente a uma doença terminal. E vivo me equilibrando na corda bamba da saudade para não cair. Sou forte. Vi e vivi nas ruas as histórias mais tristes e bonitas que podiam ser contadas. Sou curiosa. Me viro e pago a minha vida tanto outdoor quando no melhor indoor do mundo...a minha casa linda, cheia de quadros e uma cama magnética. Sou independente. Foram só 26 anos. Lado a lado. Numa convivência com todos os traquejos de uma família normal...brigas, amor, afeto, revolta. 
Teimosa. Leal. Vaidosa. Amorosa. Tempestuosa. Fiel. Sociável. Bonita. Boa de briga. Minha Mãe.
Ela sempre aparentou ser mais nova do que a idade da certidão apontava. Não tinha rugas. Coisa de família. Todos os parentes com esse DNA de Bagé vieram abençoados com o gene do formol. Era só uma linha de expressão na testa. Marca da mulher sisuda que aos 60 parecia ter 50. Mas não era isso que me fazia ficar encantada por ela. Não. Era o jeito de prender o cabelo. Aquele rabo de cavalo que mantinha os fios em perfeição sem o uso de qualquer gel. Era o batom vermelho. Vermelho paixão e mais nada de maquiagem. Para ela lábios pintados já bastavam. A vaidade até para dormir. Lembro das camisolas, pijamas jamais, não são nada femininos, ela dizia. As pérolas em dias de festa. O cuidado com a pele. Ela passava horas se besuntando de cremes. Os anéis de prata e ouro. Lindos em dedos finos. De quem era bailarina mas poderia muito bem tocar piano. A palma da mão mais lisinha e macia que já toquei. Dava prazer tocar nas mãos dela. Eram suaves, delicadas. E ela tinha ainda aquele perfume. Um perfume de pele. Um aroma próprio. Doce, achocolatado. Quando ela saia do prédio, todos sabiam que ela havia passado pelo corredor. Ela tinha esse cheiro só dela. Não era um simples cheirinho de mãe. Não era um perfume importado.Mas era algo que ela trazia. Era o cheiro do amor. Daqueles que elas chamam incondicional. 
E que hoje, no quarto dia das mães sem ela, faz uma falta tremenda. 
Respiro. Inspiro. E o que me resta é lembrar. 

terça-feira, abril 23, 2013

Se eu fosse inglesa, loira e cantora seria ela, certo..



See I...
I should've been a little bit stronger
I should've been a little bit harder
I should've been a little bit tougher
I should've been a little bit smarter
I should've been a little bit rougher
I should've been a little bit stronger
I should've been a little bit faster
Away from you baby
Away from you

I made it on my own
Now the feeling's gone
It's so gone!

segunda-feira, abril 08, 2013

A leveza da paz

Mais uma cidade. Mais um hotel. Já são tantos. E tantas histórias. Ele escreve pra ca*****. Sim!
Cada vez mais e melhor. Essa coisa de falar e escrever demais. Matraca humana. Sei bem como é. Deve ser isso. Não há prazer melhor do que ler alguém. Sim, ler alguém. Cada livro é uma pessoa. Mas pouco importa. Dias de chuva. Na alma. Música nos ouvidos. Diga me com quem andas e te direi se vou junto. Leio. Sem parar. O rapaz latino americano continua o mesmo. Não há dúvida.
Ando. E como andei... as milhares de vidas noticiadas por aqui. Mudo. Vislumbro algo que o coração pede. A cortina do quarto 558 tá fechada. Ele poderia ser, ter, crer. E me pego pensando não é possível - e mais fácil - dar um tiro de misericórdia na cabeça de quem amamos? O velho poeta na sua velha roda de girar. Maresia estraga móveis, janelas, eletrodomésticos. E nós,  tão feitos de carne e osso?!  Enferrujamos?! Com aquela cor avermelhada, porosa e velha?! Limpe as arestas, meu filho. Sempre. Seja rápido. Senão...
Aquele mapa dos Estados Unidos aqui na mochila. As estrelas para contar. Os enigmas para desvendar. Bicicletas. Acordes. Aurora boreal. E os caretas com suas musiquinhas, choppinhos, papinhos de trabalho e filhos. Chatice.
(Re)percebi ao lembrar o velho guardanapo de papel. É isso pohan: VIDA!
Naquela noite esqueci de falar uma coisa. Era sono. Bebida. Paixão. Sei lá. Como dizem por aqui: "agora já eras". Remediamos. Ah, a era oposta. Sim garota, quero, agora, já. Segurança. A Revolução Russa e a Ditadura Militar no Brasil. Armas em punho. Pequenos e frágeis revolucionários. Cada um no seu mundinho. Mundanos.
Somos tão tão tão fodas. Tão tão tão fracos. 3,05 é definitivamente um roubo para uma passagem de ônibus. Abandono tudo que me faz mal. Não quero malas pesadas. Agora só bolsos e bolsas leves. 
A leveza da paz. 
Sobra tempo. 

sexta-feira, março 15, 2013

I Can See For Miles...Yeah, I can see...



If you think that I don't know about the little tricks you play


quinta-feira, março 07, 2013

Estagnado, boiando num marzão, cheio de piranha de pirata e tubarão...


É um bicão em qualquer passeata
Pega a bandeira e vai gritando com a massa
Seu pai bebeu, ele na brisa e no breu
E o gueto tão distante na porta bateu
E vai atrás, conhece toda nata
A Viviane é a sua namorada
De dia vai perdendo o bom tempo
De noite a razão se joga pro sereno

Não quero mais
Nem posso ver
Não quero mais
Brincar com você
Eu desisto, eu desisto

E o troço pega a tal velocidade
E como tudo aquilo que te tira a vontade
Estagnado
Boiando num marzão
Cheio de piranha, de pirata e tubarão

Paga de boy
ele é humildade zero
Na Roma antiga deveria ser o Nero
Berço de ouro
nunca varreu um chão
Dinheiro não é problema
sempre é solução
Mamãe não vê onde seu tubarãozinho chora
Achou que filho de peixe grande não se afoga
Ainda dá tempo, assume teu papel no mundo
Não deixe que esse mar de lama inunde com tudo

Não quero mais
Nem posso ver
Não quero mais
Brincar com você
Eu desisto, eu desisto

E o troço pega a tal velocidade
Como tudo aquilo que te tira a vontade
Estagnado
Boiando num marzão
Cheio de piranha, de pirata e tubarão

Tubarãozinho!
Tubarão!


quinta-feira, fevereiro 28, 2013

When the rain washes you clean you'll know

Gosto e faz tempo do The Corrs!




Now here you go again, you say you want your freedom
Well who am I to keep you down
It's only right that you should play the way you feel it
But listen carefully to the sound
Of your loneliness

Like a heartbeat drives you mad
In the stillness of remembering what you had
And what you lost

Yeah, thunder only happens when it's raining
Players only love you when they're playing
Yeah, women they will come and they will go
When the rain washes you clean you'll know, you'll know

Now here I go again, I see the crystal visions
I keep my visions to myself
Well It's only me that wants to wrap around your dreams and
Have you any dreams you'd like to sell
Dreams of loneliness

Like a heartbeat drives you mad
In the stillness of remembering what you had
- Drives you mad,
And what you lost, - remember what you had -

sábado, fevereiro 23, 2013

I should have know...



I should've know, that it would end this way
I should've know, there was no other way
Didn't hear your warming
Damn, my heart gone there!!!

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Rio, cidade-desespero

"A vida é boa mas só vive quem não tem medo
Olho aberto
Malandragem não tem dó, Rio de Janeiro, cidade hardcore"




terça-feira, dezembro 04, 2012

Antes que o mundo acabe...

Eu quero
Estar nos teus braços
Tomar banho de mar
Ler poesia
Comer sashimi de salmão
Dançar rock com a Helena
Embalar o Joaquim na pracinha
Falar bobagens
Rir com a turma Deti Metal da Famecos
Andar de skate
Correr de noite na praia
Ganhar uma chuva de beijos
Estender a cama com lençóis novinhos
Continuar amando minha louca profissão
Manter a cartilagem dos meus joelhos
Contar sempre a verdade
Ganhar um presente inesquecível
Ver meu pai
Lembrar da minha mãe
Abraçar meus amigos
Sentir o vento no rosto
Caminhar no meio do mato
Ser a única vencedora do Jorgite
Parar com o chocolate
Voltar pro Yoga
Receber flores
Limpar a casa
Lavar a alma
Gargalhar
Sambar na Portela (Eu nunca vi coisa mais bela)
Um novo desafio
Beijos de tirar de fôlego
Doudas aventuras
Te amar!

terça-feira, novembro 27, 2012

Dessas músicas que resumem minha vida...





Me gusta estar a un lado del camino
fumando el humo mientras todo pasa
me gusta abrir los ojos y estar vivo
tener que vérmelas con la resaca
entonces navegar se hace preciso
en barcos que se estrellen en la nada
vivir atormentado de sentido
creo que ésta, sí, es la parte mas pesada

en tiempos donde nadie escucha a nadie
en tiempos donde todos contra todos
en tiempos egoístas y mezquinos
en tiempos donde siempre estamos solos
habrá que declararse incompetente
en todas las materias de mercado
habrá que declararse un inocente
o habrá que ser abyecto y desalmado
yo ya no pertenezco a ningún istmo
me considero vivo y enterrado
yo puse las canciones en tu walkman
el tiempo a mi me puso en otro lado
tendré que hacer lo que es y no debido
tendré que hacer el bien y hacer el daño
no olvides que el perdón es lo divino
y errar a veces suele ser humano

no es bueno hacerse de enemigos
que no estén a la altura del conflicto
que piensan que hacen una guerra
y se hacen pis encima como chicos
que rondan por siniestros ministerios
haciendo la parodia del artista
que todo lo que brilla en este mundo
tan sólo les da caspa y les da envidia
yo era un pibe triste y encantado
de Beatles, caña Legui y maravillas
los libros, las canciones y los pianos
el cine, las traiciones, los enigmas
mi padre, la cerveza, las pastillas los misterios el whiskymalo
los óleos, el amor, los escenarios
el hambre, el frío, el crimen, el dinero y mis 10 tías
me hicieron este hombre enreverado

si alguna vez me cruzas por la calle
regálame tu beso y no te aflijas
si ves que estoy pensando en otra cosa
no es nada malo, es que pasó una brisa
la brisa de la muerte enamorada
que ronda como un ángel asesino
mas no te asustes siempre se me pasa
es solo la intuición de mi destino

me gusta estar a un lado del camino
fumando el humo mientras todo pasa
me gusta regresarme del olvido
para acordarme en sueños de mi casa
del chico que jugaba a la pelota
del 49585
nadie nos prometió un jardín de rosas
hablamos del peligro de estar vivo
no vine a divertir a tu familia
mientras el mundo se cae a pedazos
me gusta estar al lado del camino
me gusta sentirte a mi lado
me gusta estar al lado del camino
dormirte cada noche entre mis brazos
al lado del camino
al lado del camino
al lado del camino
es mas entretenido y mas barato
al lado del camino
al lado del camino

terça-feira, abril 10, 2012

Descemos quietos

Despretensioso.
Curto.
Inexpressivo.
É isso. Isso que posso dizer dele.
Tudo aconteceu numa fração de segundos.
Foi de repente.
Depois de 28 anos e 8 meses.
Ele tinha que aparecer.
De relance.
Quebrando toda a minha história.
Talvez mudando o rumo da minha vida.
Era como uma afronta, uma humilhação.
A primeira vez?!
A do primeiro sentimento de raiva.
Que seria uma mistura de susto com perplexidade.
Foi quase um pesadelo.
Nos cruzamos no elevador.
Frente a frente.
Olhos grudados no espelho.
Não acreditando que aquilo estava acontecendo.
Ele e eu.
Eu e ele.
Não estávamos sozinhos.
Tentamos nos controlar.
Eu mais ainda.
Essa fúria espartana louca para se tornar realidade.
Mãos firmes.
Térreo.
Descemos quietos.
Ainda em choque.
Algumas horas se passaram.
Tentei esquecer do assunto.
Voltei. Pensei que nunca mais o veria.
Ledo engano.
O raio caiu duas vezes no mesmo lugar.
Eu entrei no elevador.
Ele comigo.
Mais uma vez.
Ele e eu.
Eu e ele.
Decidi tomar uma atitude.
Aproximei meu rosto ao máximo.
Fitei o espelho.
Não acreditando no que via.
Forcei a retina.
Subi as mãos.
Como se estivesse sendo assaltada.
A surpresa me embasbacou na primeira vez.
Mas naquele momento foi diferente.
Tomei coragem.
Movimentos bruscos.
Um busca certeira.
Olhos como se fossem lupas.
Dedos rápidos e uma confirmação..
Aquilo era ele.
Ele mesmo.
O meu primeiro (e mísero) fio de cabelo branco.

segunda-feira, abril 09, 2012

Bom dia, tristeza

Em desacordo.
O silêncio.
A quietude branca.
O sofá vazio.
Era feliz.
Haviam flores.
A espera infantil de uma presença.
A ciência.
O sentimento.
Há eu.
Aqui.
Repito.
A palavra amor.


quinta-feira, abril 05, 2012

A finlandesa


Sou uma ex-motorista. Não, não é bem isso. Não sou "ex" como se é ex-mulher, ex-presidente, ex-madrinha da bateria. Na verdade, nunca ocupei o cargo. Tirei a carteira, dei umas voltinhas, suei frio na Ipiranga uma meia dúzia de vezes e desisti. Tirei meu calhambeque da chuva. Não é pra mim. Tchau. Fui. 

Dizendo assim, "e desisti", parece que foi fácil. Não foi. Admitir o fracasso, resignar-se a ele, foi uma pedreira existencial. É duro dar marcha a ré em uma decisão. Custou noites e noites de sono e um fio de cabelo branco que eu batizei de "primeira marcha". Amigos e parentes motoristas, generosamente, fizeram preleções de todos os tipos para me convencer a continuar tentando. O tipo motivador: "Vai em frente, guria. Isso é moleza pra ti". O tipo exemplar: "Eu era bem assim no início". O tipo solidário: "Eu dou umas voltinhas contigo". O tipo autoritário: "Nem se atreva a desistir agora, sua biltre". 

Diante do fato consumado, porém, fez-se um inesperado silêncio. O pior tipo de silêncio: o de piedade. Como se estivesse claro que eu tinha uma disfunção motora grave, um bloqueio psicológico oculto, uma fraqueza de vontade vexatória. Olhavam e inclinavam a cabeça pro ladinho. Alguns suspiravam. Mas mesmo me sentindo da altura de um pára-choque de Fuca, segurei o tranco. Quem disse que eu não tenho força de vontade? Cheguei ao inacreditável paradoxo de me orgulhar da minha coragem para abraçar o fracasso. Inventei o fracasso triunfante. 

É verdade que eu não levo muito jeito pra coisa - fazer o quê? Até para regar canteiro é preciso técnica e uma certa manha. Mas o que definiu realmente a partida não foi (apenas) a minha falta de talento. O que mais me incomodou foi o climão geral do negócio, a "vibe" - as manobras desnecessariamente arriscadas, a impaciência, a violência implícita no processo todo. Cheguei à conclusão de que eu queria incluir isso na minha vida tanto quanto eu gostaria de acompanhar a próxima temporada do campeonato mundial de boxe. Não, obrigada, fica para a próxima encarnação. 

Será que estou exagerando? Será que isso é só desculpa para justificar o meu fracasso triunfante? Pode ser. Mas a excelente reportagem sobre violência no trânsito me deu alguns bons argumentos. A jovem finlandesa que percorreu algumas das zonas mais congestionadas da Capital e se chocou com a selvageria do trânsito gaúcho disse tudo: "Eu não conseguiria dirigir aqui". Viram? Bingo! A solução pra mim é mudar para a Finlândia. Ou continuar filando carona. 

Claudia Laitano -  que assim como eu detesta dirigir!

quarta-feira, março 21, 2012

Perdigueira

Meus amigos reclamam quando suas namoradas o perseguem. Lamentam o barraco do ciúme, a insistência dos telefonemas para falarem praticamente nada, o cerceamento dos horários.

Eu me faço de surdo.

Fico com vontade de pedir emprestada a chave da prisão para passar o domingo. Acho o controle comovente. Invejável.

Não sou favorável à indiferença, à independência, ao casamento sartreano. Fui criado para fazer um puxadinho, agregar família, reunir dissidentes. Duas casas diferentes já é viagem, não me serve.

Aspiro ao casamento pirandelliano, um à procura permanente do outro. Sou um totalitário na paixão. Um tirano. Um ditador. Não me dê poder que escravizo. Não me dê espaço que cultivo. 

Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada quinze minutos para contar de uma ideia ou de uma nova invenção para salvar as finanças, quero uma mulher que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime. Que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu. Que seja escandalosa na briga e me amaldiçoe se abandoná-la. Que faça trabalhos em terreiro para me assustar e me banhe de noite com o sal grosso de sua nudez. Que brigue pelo meu excesso de compromissos, que me fale barbaridades sob pressão e ternuras delicadíssimas ao despertar. Que peça desculpa depois do desespero e me beije chorando.

A mulher que ninguém quer, eu quero. Contraditória, incoerente, descabida. Que me envergonhe para respeitá-la. Que me reconheça para nos fortalecer.

A mulher que não sabe amar recuando e não tolera que eu ame atrasado. Alegria pequena e preciosa de respirar rente ao seu nariz e definir com que roupa vou ao trabalho.

O amor é uma comissão de inquérito, é abrir as contas, é grampear o telefone, é cheirar as camisas. É também o perdão, não conseguir dormir sem fazer as pazes.

O amor é cobrança, dor-de-cotovelo, não aceitar uma vida pela metade, não confundi-la com segurança. Exigir mais vontade quando ela se ofereceu inteira.  Quem aspira ao conforto que se conserve solteiro. Eu me entrego para dependência. Não há nada mais agradável do que misturar os defeitos com as virtudes e perder as contas na partilha.

Não há nada mais valioso do que trabalhar integralmente para uma história. Não raciocinar outra coisa senão cortejá-la: avisá-la para espiar a lua cheia, recordar do varal quando começa a chover, decorar uma música para surpreendê-la, sublinhar uma frase para guardá-la.

Quero uma mulher imatura, que possa adoecer e se recuperar do meu lado. Uma mulher que me provoque quando não estou a fim. Que dance em minhas costas para me reconciliar com o passado. Que me acalme quando estou no fim do filtro. 

Não me interessa um tempo comigo quando posso dividir a eternidade com alguém.

Quero uma mulher que esqueça o nome de seu pai e de sua mãe para nascer em meus olhos. Em todo momento. A toda hora. Incansavelmente. E que eu esteja apaixonado para nunca desmerecê-la, que esteja apaixonado para não diminuí-la aos amigos.

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É meus amigos, será que esse cara acima existe?! 

Quem dera! Afinal, a mulher perdigueira sofre um terrível preconceito no amor. Como se fosse um crime desejar alguém com toda intensidade. Ela não deveria confessar o que pensa ou exigir mais romance. Tem que se controlar, fingir que não está incomodada, mentir que não ficou machucada por alguma grosseria. Ela é vista como uma figura perigosa louca, desvairada. Não pode criar saudade das banalidades, extrapolar a cota de telefonemas e perguntas. É condenada a se desculpar pelo excesso de cuidado. Pedir perdão pelo ciúme, pelo descontrole, pela insistência de sua boca.  Boca que sempre quer beijos. Exige-se que seja educada. Ora, só o morto é educado. O homem inventou de discriminá-la. Em nome do futebol. Para honrar a saída com os amigos. Para proteger suas manias. Diz que não quer uma mulher o perseguindo. Que procura uma figura submissa e controlada que não pegue no seu pé. 

Que pena, não?!

quinta-feira, outubro 27, 2011

Respeito é ouro















"Ser capaz de respeito é hoje em dia quase tão raro como ser digno de respeito". ( Joseph Joubert )
 
"A bondade é o princípio do tato, e o respeito pelos outros é a primeira condição para saber viver". ( Henri Frédéric Amiel )