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segunda-feira, junho 17, 2013

12º andar

Nem penso no que eles pensam. Agora entendo porque o garoto não suportava as máquinas ferozes. Elas vivem podando sua criatividade e impondo sentenças medíocres para fins lucrativos. Sim, eu já sabia disso. Mas a gente sempre tenta mascarar a realidade. É como o botão que falta na camisa. O botão falta e você sabe que a camisa vai continuar servindo mesmo assim. 
Ele disse vem. Não fui. E os azulejos permaneciam craquelados. Uma menina sorri no 12º andar. Ela olha para fantasmas.  Mas não os teme. Ainda assim, sorri. O relógio da vida vai tiquetaqueando em minha cabeça. Cada minuto pode ser o último! A umidade relativa do ar afeta proporcionalmente os rins. Faz frio. Nem dá pra bater o queixo. No meio da multidão vi seu riso. Vem. Eu fui. Chega o momento em que as fichas caem e percebemos que mesmo sendo poeira cósmica, um instantinho fugaz, seremos sempre estrelas. Nunca aceite nada menos do que o brilho delas. E não são só números, verbas, gastos. E sim sentimentos. Emoções. Honra. Dignidade e Respeito.
E agora penso lógica e racionalmente como nunca havia feito antes.
Basta de empresas sanguessugas, de políticos corruptos, de mulheres malvadas, de um governo que não investe no que importa, de homens cretinos, de gente que rouba, de impunidade. Basta! 
É hora de arrancar a camisa, esteja ela com ou sem botão. 

segunda-feira, abril 15, 2013

O som ao redor



Recife, berço da bárbara civilização brasileira. Num bairro que sintetiza o Brasil, ilhas de luxo em meio ao oceano de favelas. Empregadas domésticas, mulheres negras, lavam as roupas, passam o café na hora certa, são pontuais na faxina. A riqueza hereditária acolhe as novas gerações de patrões. Enquanto cada um cumpre suas funções cotidianas, entre ordens, favores e gestos cordiais, há uma tensão subterrânea que cresce, um susto que está por vir. Por isso, mais câmeras de segurança, alarmes, medo, grades elétricas, luzes automáticas, sensores de movimento, mais tecnologia antipânico e novos guardas noturnos particulares.

No primeiro longa-metragem de Kléber Mendonça Filho, o bairro de Setúbal é o protagonista. Cresceu rápido, vertical e paranoico. Foi habitado pela típica classe média alta conservadora e por uma aristocracia rural que se reinventou na cidade. Francisco é o proprietário de quase todos os imóveis de alto padrão da região. Melhor dizendo: senhor Francisco. Ele é também proprietário de um engenho decadente no interior, onde passa a maior parte do tempo. Seu neto, João, trabalha como corretor dos apartamentos do avô, odeia o que faz e está empolgado por causa do novo romance com Sofia,

Quando João e Sofia decidem visitar seu Francisco no engenho, encontram um cenário de ruínas do antigo complexo açucareiro: um cinema antigo, máquinas invadidas pelo mato, a casa-grande, a senzala e os passos do andar de cima. Revisitam o passado imperial. E no meio de um refrescante banho de cachoeira compartilhado pelos três, embaixo de uma densa massa de água que cai pesada e gélida sobre seus ombros, vem a cena-chave do filme: num piscar de olhos, a água se transforma em sangue, vermelho vívido. São poucos fotogramas. João é encharcado pelo sangue que construiu a riqueza do avô. É uma pista para explicar a violência latente da vida contemporânea. O escravismo está entre o passado e o futuro. Sofia, que também já morou no bairro. Maria, a empregada doméstica que serve a casa de João, viu o menino nascer. Ele é gentil, íntimo e preocupado. Brinca com as netas da empregada, é cuidadoso com a filha, também empregada, que às vezes vai substituir a mãe. É como se fossem “da família”. A pobreza, como a riqueza, também é hereditária. João é decididamente cordial. Aliás, é um exemplar do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda no século XXI, que trata as relações de exploração por meio do afeto. Ele é o eixo do filme, nos conduz pelas cenas e nos apresenta o bairro e seus ruídos.

Essa cena faz emergir, em frações de segundo, a história subterrânea que sustenta a história visível. É a mensagem forte do filme. Que o clima de medo, de catástrofe iminente, de terrível ameaça, não precisou de uma gota de sangue para se expandir. Precisou de uma cachoeira. Sobre os jovens ombros de João, pesa o passado de seu avô, com seus capatazes e latifúndios. A chave explicativa da violência contemporânea não seria nem a maldade nem o imediatismo. Seria sim uma violência histórica e estrutural, que permeia o cotidiano brasileiro e já está completamente naturalizada. A paranoia securitária que vivemos é diretamente proporcional à incompreensão das elites nacionais sobre as raízes históricas da violência. Mais que isso: a incapacidade crônica dessas elites de enxergar a reprodução da cultura escravista através dos séculos e as manifestações novas por ela assumidas no presente. O escravismo brasileiro como sistema econômico acabou há mais de um século. Mas o som ao redor não deixa dúvidas: o escravismo como fenômeno cultural está vivo, renovado pelos hábitos modernos das elites brasileiras. 

*JOANA SALÉM VASCONCELOS (Historiadora, USP) - Artigo original publicado em Le Monde Diplomatique Brasil  Fevereiro/2013

quarta-feira, julho 21, 2010

Em teu nome













Pra quem não viveu o terror da ditadura militar no Brasil. Um pouquinho da história com sotaque e gente daqui. Pra saber mais, faço das palavras dele, as minhas.

segunda-feira, maio 10, 2010

Pagu



















Patrícia Galvão. Figura múltipla. Escreveu reportagens, livros, peças de teatro, foi militante política e agitadora cultural. Em junho completa-se o centenário do nascimento (09/06 de 1910) dessa paulista de São João da Boa Vista. E dai eu me lembrei que na escola estudei um pouco do movimento cultural e político que a tal da moça Pagu participava. Remoendo isso, fui buscar elementos da vida dessa comunistinha lá na casa da minha dinda (pra variar) e descobri mais do que queria. Vamos aos fatos?! Pagu atirou-se na vida com um sofrimento de suicida. Na época em que mulheres só podiam casar e ter filhos, ela teve coragem de transgredir e pagar o preço. Sendo assim, não se poupou de nada.
Conhecida como a mascote sexy e bem falante dos modernistas, viveu mais dramas do que alegrias. Mas cumpriu seu papel no mundo: o de demolidora de convenções. O pai, advogado, gastava o dinheiro em bares, a mãe, alemã, obrigava aos filhos a vida disciplinada e a resignação. Patrícia, odiava aquilo tudo. Aos 12 anos decidiu virar mulher, e para isso, escolheu um homem mais velho, com quem viveu durante dois anos . Aos 14, engravidou e submeteu-se a um aborto que perdurou em sua memória como uma lembrança terrível. Para sair de casa, deu um jeito. Aos 15, assinando como Patsy, estreou na imprensa - no Brás Revista - com poemas e desenhos. A graça de Patrícia não passou despercebida. Raul Bopp - que a apelidou de Pagu por achar que seu nome era Patrícia Goulart - foi o primeiro a cair de amores ((( Pagu tem os olhos moles, uns olhos de fazer doer. Bate-coco quando passa. Coração começa a bater. Eh Pagu eh!))). Sendo a menina dos modernistas, passou a escrever para a Revista de Antropofagia, na segunda fase, publicada pelo Diário de São Paulo. Todos se encantaram...Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral incorporaram a moça à vida social da época. Mas...
...Não é que ela acabou ficando com Oswald e perdendo a amizade de Tarsila (que passou a chamar Pagu de "a Normalista"). Praga ou não, na véspera do casamento, Pagu encontrou o futuro consorte com uma moça. E foi por causa da lealdade dela a ele que conseguiram manter o casamento. Com o marido, ela trabalhou intensamente. A década de 30 foi marcada pela fermentação dos ideais políticos. A expansão do fascismo e o surgimento do nazismo atraíram para o comunismo uma parcela da juventude. Inclusive ela. Bastaram 3 dias de conversa com Luíz Carlos Prestes para nascer uma militante.
Dedicou parte da vida ao Partido Comunista, deixou o filho Rudá, ainda bebê ao cuidados do pai e foi viver como operária no Rio. Para provar sua fidelidade ao Partidão suportou prisões, fome , exaustão e doença. Mas revoltou-se ao ser convocada para tarefas em que deveria oferecer sexo por troca de informações. Largou tudo e foi para a Europa. Enviava reportagens para o Correio da Manhã, do Rio e o Diário da Noite, de SP.
Em 1935, separada de Oswald, foi presa na Intentona Comunista, entre fugas e recapturas amargou 5 anos na prisão. Ao sair, tinha 30 e se transfomara segundo ela "numa rocha vincada de golpes e amargura". Tentou novamente o amor, dessa vez com o jornalista Geraldo Ferraz. Foram anos de dedicação a palavra escrita. Viveu com paixão o jornalismo cultural. Lançou o suplemento literário do Diário de S.P e deu um empurrãozinho na estréia de Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector, além de apresentar o leitor a James Joyce, Henry Miller e o meu adorável William Faulkner. Essa Pagu, ficou na memória do segundo filho, que dizia que "a mãe passava as tardes escrevendo docemente". Ela gostava de cozinhar e ficar em casa, mas a depressão batia e junto com ela o álcool imperava. Tentou o suícidio duas vezes. A última, com um tiro no peito, foi em Paris, para onde viajou quando descobriu um câncer de pulmão. Socorrida, sobreviveu alguns meses, mas não suportou a doença que a levou aos 52 anos. Intensa, indignada no palanque, mulher. Pagu deixou um legado simples: o de quem sonhava com horizontes mais amplos. E ela, conseguiu!